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Avaliação dos Polimorfismos Do Gene Bcl11a e dos Genes de Reparo de Fita Dupla Do Dna, Atm e Atr, em Pacientes Com Anemia Falciforme

Publicado em: 06/12/2019
Autor : Cavalcante IR, Moura ATG, Filho TPA, Garcia YDO, Duarte FB, Machado CMG, Machado RPG, Duarte BA, Duarte JVA, Lemes RPG
Publicado em: https://hemo.org.br/2019/doc/HTCT_HEMO_2019_final.pdf

Introdução:

A anemia falciforme (AF) é uma doença hematológica causada por uma mutação ocasional no gene da β-globina que resulta em uma hemoglobina S (HbS) anormal em homozigose. A AF é caracterizada por um processo inflamatório crônico que tem sido associado à instabilidade genética e funciona como um fator de risco para o desenvolvimento de alterações genéticas. Essa instabilidade pode surgir a partir de uma resistência à apoptose mediada por hipóxia e/ou através do comprometimento dos mecanismos de reparo do DNA, leva ao aumento das taxas de mutagênese. Desse modo, duas proteínas quinases, a ataxia telangiectasia mutada (ATM) e a ataxia telangiectasia Rad3 relacionada (ATR), exercem um importante papel, uma vez que participam do mecanismo de reparo do dano de dupla fita do DNA. O principal tratamento na AF é a hidroxiureia (HU), que aumenta a concentração de hemoglobina fetal (HbF), um modulador clínico da doença.Um importante gene associado à expressão de HbF é o BCL11A, cujos polimorfismos estão associados às variações nas concentrações de HbF, podendo minimizar os eventos clínicos associados à doença.

Objetivo:

Avaliar os polimorfismos dos gene BCL11A e dos genes de reparo de fita dupla (ATM e ATR) e associá-los a dados laboratoriais e clínicos de pacientes com AF.

Material e Métodos:

Estudo transversal, analítico, com 125 pacientes com diagnóstico clínico e molecular de AF, com e sem uso de HU e em estado basal. As análises estatísticas foram feitas com o software SPSS v.20; foi considerada significante p < 0,05.

Resultados:

A média de idade foi de 33 anos, a maioria do sexo feminino. Na análise do polimorfismo do gene BCL11A, a rs7557939, observou-se uma diminuição da HbF (p = 0,0038), VCM (p < 0,001) e HCM (p = 0,030) nos pacientes com genótipo A/A. A análise de covariância revelou uma associação entre a HbF, o VCM e o HCM e o tratamento com HU (p < 0,05). A análise univariada demonstrou uma associação com a presença de úlcera de MMI, e a análise de regressão nominal multivariada mostrou que pacientes com o genótipo A/G apresentavam menor chance de ter úlcera (p = 0,037) e que o genótipo A/A se correlacionou com o aumento da chance de desenvolverem crises álgicas (p < 0,001). Na análise da rs4671393, verificou-se que os pacientes com o genótipo A/A apresentaram maior número de leucócitos (p = 0,019) e plaquetas (p = 0,027). A análise na rs1186868 não demonstrou influência sobre os parâmetros analisados. Quanto às análises dos polimorfismos dos genes de reparo do DNA, o polimorfismo genético rs228593 do gene ATM revelou uma diminuição dos níveis de HbS (p = 0,023) e do número de plaquetas (p = 0,018) nos pacientes que apresentaram o genótipo G/A e A/A. Em contraste, foi encontrado um aumento da HbF (p = 0,010) nesses mesmo pacientes. A análise do polimorfismo rs229032 do gene ATR não apresentou associação com os parâmetros laboratoriais e clínicos.

Discussão:

A associação de moduladores genéticos (BCL11A e ATM) demonstrou ser importante marcador biológico da AF, como é o caso da HbF. A HbF é a responsável por inibir a polimerização da HbS, um dos pricipais eventos da fisiopatologia da doença. Até o presente momento, não existem relatos da função do gene ATM em pacientes com AF.

Conclusão:

Podemos inferir que tanto o polimorfismo do gene BCL11A quanto o polimorfismo do gene ATM apresentaram influência como moduladores clínicos e laboratoriais na AF.